Rsrsrs

Maio 30, 2008

Às vezes, me sorri de repente.

E se ausente estiveres, é assim que lembro de ti – a sorrir.

Aquele riso rasgado, que tão bem te desenha o rosto.

Aquele gosto alegre na boca, que leve gosto.

 

Às vezes, o teu riso é um flerte.

Daqueles que não se quer conter.

Daqueles que se observa contente.

 

Então, quando distante de mim, te imagino assim – a sorrir.

Um riso tão largo que às vezes se torna o meu.

Quase instantaneamente.

E passa a ser um riso roubado pelos lábios teus.

 

Agora anseio aquele riso inesperado;

Alegre, flerte e roubado…

Que às vezes me sorri de repente.

Mas toda vez me surpreende.


Continuidade

Maio 20, 2008

“Amar se aprende amando”. E assim, Drummond fez do amor um constante exercício.

É uma ação que se dá pelo verbo amar no infinitivo, mas que ocorre na verdade, quando o amor está acontecendo, quando está sendo continuado, ou seja, quando se está amando.

Há melhor forma de viver o amor senão pela capacidade de senti-lo? Por mais óbvia que possa parecer essa constatação, é muito comum ver casais que deixaram de se conquistar. Tratam o ser amado como se fosse algo já possuído.

Sou da opinião de que nunca se conhece de fato uma pessoa, e isso não é necessariamente ruim, nada mais é do que acreditar que o outro sempre pode surpreendê-lo positivamente.

As mais diversas formas de amar, muitas vezes não são expressas em palavras, e mesmo assim, não deixam de ser amor. Longe de ser um ‘amor não-dito’, são na verdade, um ‘amor refletido’ em gestos, sonhos, planos, preocupações, agradecimentos, preces e cuidados.

Amar e amando: sentimento de ações contínuas, que não se encerra em si e nem no outro. 

   


Sorria (com Corega)

Maio 20, 2008

Adoro o humor dos velhinhos. Simplesmente amo.

Eles tem aquele ar despreocupado com as piadas que fazem. Como se realmente já tivessem vivido e visto tudo na vida.

Outra dia uma senhora brincou no elevador: “eu queria viver mais”. E disse que se fosse o caso, faria mais faculdades, casaria mais vezes, faria mais loucuras e queria ter tempo para viver essa diversidade de coisas.

O que eu também acho ”tragicômico” é a facilidade que eles têm para brincar com a morte e coisas do gênero, outro dia um senhor me abordou, dizendo que comeria um tartelete igual o meu, e se fizesse mal, era vela e caixão. E sorriu um riso tão gostoso que foi impossível não arrancar também um sorriso meu e da moça do balcão.

Já vi casos, em que as pessoas fazem piada até de suas doenças, das dentaduras e de todo o resto. Elas chegam ao ponto de fazer do mal-humor algo extremamente engraçado, aceitável, leve. Na minha família as reclamações da nossa “velhinha” sempre dão lugar a alguma espécie de chantagem emocional das boas, feitas só para chamar a nossa atenção.

Talvez a clareza sobre as coisas da vida ou a proximidade de um possível fim, os faça aproveitar tanto cada momento, como se não houvesse amanhã. Como se a felicidade nada mais fosse que o riso que está por vir, exatamente no próximo segundo em que eles abrirem a boca para dizer algo totalmente ousado, audacioso e descompromissado. E nesse ponto, eles se parecem muito com as crianças, são elas que não tem a menor preocupação de se fazer entender, de significar. 

Em ambos os casos, o que os move, é a verdadeira vontade de se expressar. Seja como for.


Cortesias

Maio 20, 2008

Meio-dia no metrô. Lotado. Como sempre nesses horários de rush.

Toca o sinal “Os bancos de cor laranja são preferenciais para idosos e pessoas com crianças de colo. Seja solidário, ceda o lugar”.

Na mesma hora pensei que hoje as pessoas são ‘lembradas’ de ter algum tipo de cortesia umas com as outras. Nada contra as boas práticas do metrô, mas uma campainha que toca repetidas vezes nos pedindo para sermos solidários me soa preocupante. Deve ser algo para se aprender realmente e daí vem o caráter recordatório da mensagem.

Ceder ao outro, na medida do possível, é uma ação extremamente diplomática, que deveria ser pensada para além dos bancos do metrô. Ceder o lugar, o “seu lugar”, é deixar de ocupar um espaço em função de outra pessoa, e pelo o que eu vejo por aí, nem todo mundo está disposto a fazê-lo. Uma pena.

Então o que realmente falta além de “solidariedade” é só um pouquinho, mas um pouquinhio mesmo de boa vontade.

Será que assim a coisa anda?    


Indicadores

Maio 19, 2008

Impressões. Assim tentaram me definir: 40% de loucura e 60% de que?

Imagino que seja de lucidez. É o que se opõe à loucura. Mas na verdade sou “momentos”. E não me imagino sendo 100% de alguma coisa, pois como dizia Nelson Rodrigues, ‘toda unanimidade é burra’. E eu, apesar de falsa loira, me julgo inteligente.

Fico aqui me perguntando se seria mais difícil discorrer sobre a quase metade de loucura do meu ser, ou os 20% que me rendem ainda o status de pessoa socialmente aceitável, ou melhor dizendo, “normal”.

Eu até gostaria de assumir o meu lado insano e primitivo, talvez o mais próximo do eu verdadeiro, do ID de Freud, com a falta de compromisso digna dos loucos. Mas, infelizmente (diz minha porção louca), ou felizmente (diz minha porção racional), sou uma pessoa responsável.

Alguns amigos atribuem à loucura, apenas ao fato de eu ser uma pessoa apaixonada. Mas nos meus vinte e poucos anos de vida vim colecionado adjetivos os mais diversos para os meus atuais 40%: já fui “louca”, “apaixonada”, “volúvel”, “de lua”, “sem manual de instrução”, “complicada”, etc, etc.

E também já fui todas as coisas diametralmente opostas a isso: “racional”, “fria”, “metódica”, etc, etc.

Por isso, assumo sem o menor pudor os meus ”eus”. E não poderia deixar de acreditar que tenho personalidades fortes, mais de uma fala por mim, inclusive. Sou do tipo: “leve dois, pague um”. E quem vier a viver comigo, seria curiosamente parte de um triângulo amoroso.

Duvido até das minhas proporções: 40% e 60%. Será? Sou variantes. Uma pessoa que oscila, alguém em constante movimento até o último fio de pensamento.  Só não sou 100%, porque sou Rodrigueana, mas se não fosse ele, quem sabe? 


Observatório

Maio 19, 2008

 Às vezes, ver além é uma forma de não olhar para si.

Por isso, em tempos difíceis, me dá um grande alívio ver em ti muitas coisas que eu admiro.

Vejo em ti uma constante luta - contra as dores físicas, as pressões da vida, a distância da família e as dores do mundo.

Fico grata de pensar que tentas resolver problemas que não os teus. Todos temos tantos, não é mesmo? Mas, em muitas pessoas falta o desprendimento que tens, de apesar de tudo, olhar para o outro.

E por isso eu olho para ti, assim como tu olhas para o outro, e que bom seria se isso acontecesse em uma sucessão infinita de vezes.

Pois quando não me via, voltei o meu olhar pra ti, quando achei que não era possível, foi em ti que eu acreditei.

Olhar além pode ser deixar de ver a si mesmo, mas ao mesmo tempo, descobrimos quem olha por nós. E é nessa capacidade de enxergar que se reconhece os verdadeiros amigos.

[Lerê (sf.) - Riso solto, rasgado, grande coração e de olhar colorido].


Eu prefiro acreditar

Maio 17, 2008

Estava a pensar em alguns versos da música “Coração vagabundo”:

“Meu coração não se cansa de ter esperança, de um dia ser tudo o que quer, meu coração de criança…”

E parei por aí, justamente na parte que conclui que o coração que acredita é, de fato, o de uma criança.

As crianças geralmente dedicam às pessoas um sentimento despretensioso. Elas têm, ao meu ver, o gostar mais verdadeiro, porque simplesmente gostam ou não de determinada pessoa ou coisa sem muita explicação, e isso é uma espécie de liberdade. É como se fossem livres para sentir apenas o que realmente tem vontade e ponto. Sem ter que dar ao sentimento alguma dimensão que não seja a mais pura e simples: “eu gosto”.

E quantos corações de criança vocês vêem por aí? Mesmo naquelas pessoas que nem sequer estão próximas da infância?

Eu vejo alguns. Mas a pergunta é: em quantos deles você acredita? Ou melhor: acreditaria se os visse?

Eu prefiro acreditar. Mesmo que para isso eu passe por sonhadora, louca ou um pouco das duas coisas.

Prefiro acreditar nas boas intenções das pessoas. Do contrário, espalharia por aí a desesperança, ou tiraria de alguém a possibilidade de ser.

E tanto na música quanto na vida, o ser humano e o seu coração, são nada mais do que infinitas possibilidades: “de um dia ser tudo o que [quiserem]“.

Ainda bem.

   


Nas mãos de quem?

Maio 15, 2008

Rio de Janeiro. Algum dia de maio, à noite. 

Trânsito lento em Botafogo. Entra no ônibus uma senhora cega, pedinte, e uma criança franzina, que mal se apoiava nas pernas, tentando equilibrar-se naquele vaivém delirante a que alguns motoristas ‘gentilmente’ submetem os passageiros.

Enquanto a senhora fazia o seu discurso eu observava a criança, até porque muitas dessas pessoas já falam para ouvidos surdos e vêem nada mais que um ponto cego no espaço.

A criança recolheu as doações e estava prestes a atravessar a roleta. Os constantes solavancos do ônibus fizeram cair das mãos dela boa parte das moedas. Ela se abaixou para recolher e uma outra senhora, sentada ao meu lado, foi invadida por um sentimento de compaixão e indignação, que a levaram a pronunciar meia dúzia de palavras: “porque submetem as crianças a coisas desse tipo, deveria estar na escola”, etc.

E eu, com os olhos fixos na criança fiquei a imaginar: como em mãos tão pequenas poderia caber tanta miséria?

 


Dar-se

Maio 15, 2008

Generosidade.

Aprendi mais sobre essa palavra numa conversa que levou pouco menos de cinco minutos.

Uma amiga, ao avistar um casal de velhinhos que caminhavam apoiados um no outro, pensou alto: “Quando eu vejo duas pessoas assim, imagino que elas são generosas”

Eu perguntei o porquê. E a resposta veio simples: “Para as pessoas dividirem uma vida inteira, elas precisam deixar de lado todo tipo de egoísmo”.

E logo passei a pensar que o amor é também uma espécie de generosidade. É dar-se e não esperar nada em troca, e no fundo, significa dar-se de forma tão devotada que acaba por ser a possibilidade de esquecer de si mesmo e apoiar o outro. Como aqueles velhinhos fizeram, literalmente, em passos lentos e firmes naquela rodoviária.

Concluí que há coisas que só aprendemos com o passar do tempo. Ainda bem que não se passaram anos para que eu pudesse compreender esse tipo de generosidade. Mas sim algumas horas de observação, que poderiam ser totalmente entediantes, se a vida não me mostrasse uma coisa pela qual vale a pena esperar.

[Natasha, obrigada. Nunca vou esquecer].   


Das coisas minhas que não sabes

Maio 15, 2008

 

 

Quisera eu dizer que não me conheces.

Mas a verdade é que não me suspeitas.

Há tanto em mim, que te diz respeito.

Há tanto de ti encerrado em meu peito.

Que passastes a ser o “meu respectivo”.

 

E poderia enumerar fatos e coisas,

Das coisas minhas que não sabes,

Para dizer-te, também são teus respectivamente:

Os meus sorrisos, carinhos e melhores intenções.

O passar das horas e as longas noites que passo em claro.

 Saudades e abraços protetores para dormir.

 

Das coisas minhas que não sabes,

Hesito em dizer-te, também são teus respectivamente:

Os meus medos, desejos e ansiedades.

A loucura e a lucidez.

O prazer e o entorpecer.

E a cada dia mais – o meu sossego.