Foi notícia no jornal: roubaram os óculos do Drummond. Melhor dizendo, da estátua deste ilustre, que está confortavelmente sentado na Orla de Copacabana.
Lamentei, por alguns instantes. Não me contive a pensar sobre o assunto.
A primeira coisa que me ocorreu foi que no lugar dele, eu sentaria de frente para o mar, pois a paisagem é tão extasiante, que seria muito mais bonita de se ver.
Em um segundo momento, mudei de ponto de vista. Comecei a imaginar que bom mesmo seria sentar de frente para o calçadão – como ele atualmente se encontra – pois lá estariam as pessoas sobre as quais ele escreveria em algum momento da vida. E que o ser humano é tão ou mais bonito do que qualquer paisagem, dependendo de quem observa, e como, é claro.
Depois fui tomada por um certo alívio pela parcial cegueira do Drummond. Pois no dia-a-dia que levamos há coisas que são totalmente dispensáveis aos olhos, como o ato de vandalismo que turvou a vista do poeta. Agrediu não só a ele, mas sobretudo quem o via diariamente. Tudo isso porque, assim como os poetas, as pessoas que não enxergam somente com os olhos foram invadidas por um sentimento de indignação, que lançou um novo olhar sobre a questão da conservação do patrimônio público.
Vai ver agora quem ganhou com isso? O Drummond, óbvio. Até um par de óculos novinhos arranjaram pra ele.
["E no mar estava escrita uma cidade" - Inscrição do banco da Orla de Copacabana, sobre o qual está sentado o poeta Carlos Drummond de Andrade].