Releituras

Agosto 25, 2008

Lembro desde  o primeiro: “O Gato de Botas”, aprendi a ler com esse. Depois li todos aqueles contos de fada da meninice em uma coletânea chamada “O mundo da criança”. Nunca fui exatamente desse mundo, sempre pertenci ao meu, daquele que invento a cada dia. Então, logo comecei a me aventurar por outras paragens literárias.

Numa viagem recente, vi um título que lembrou a minha juventude, “As viagens de Gulliver”, agora em DVD. Lembrei daquela época em que eu deixei de lado as minhas Barbies loiras e de puro plástico. Se bem que eu adorava as historinhas que fazia pra elas… Mas enfim, não era muito a minha onda, elas não tinham muita idéia para trocar comigo.

Fui ler Shakespeare, “Sonho de uma noite de verão”, “Romeu e Julieta”, “Otelo” entre outros, como já entrava na pré-aborrecência, nada melhor do que se deparar com a tragédia.

Encontrei a poesia e me viciei totalmente. Era uma boa para escrever as primeiras cartinhas de amor: Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius, Drummond.

Depois passei para a série de Sidney Sheldon, hipnotizantes romances policiais com sexo, violência, drogas, assassinatos, gente louca viajando pelo mundo, tudo o que flerta com a mente ávida por informação de uma menina de 12 anos. Passei tardes inteiras no quarto sob influência desse tipo de coisa. Minhas amigas e eu, tínhamos até um “clubinho de leitura”, cada uma comprava uma obra e trocávamos entre si, depois comentávamos as partes mais interessantes.

A minha relação com os livros sempre foi algo especial. Também há uma certa dualidade, quando eu gosto muito de um livro, às vezes leio numa vontade louca de saber como será o final, e em outros casos, vou lendo aos poucos, descobrindo, desfrutando, querendo adiar o fim para não me despedir dele. Não sei dizer em qual das duas situações eu gosto mais da obra. Também não lembro de nenhum livro que tenha me deixado uma sensação de perda de tempo, como às vezes acontece com os filmes.

Os livros tem sempre algo a dizer. E isso pode soar como óbvio, mas é verdade.

Algumas vezes me escondi por trás de alguns livros.  Lembro da ocasião do meu “pós-primeiro beijo” e da vergonha de encarar a pessoa no dia seguinte. Mas isso estava longe de ser um grande problema pra mim. Fui para o intervalo da escola com “O Cortiço” em mãos, e fiqui ali entretida, vivendo outras histórias que não a minha, e perdida nas entrelinhas de Machado de Assis. Nessa mesma intenção, li Maquiavel para Mulheres, indicação de uma professora da faculdade de Direito, ela ministrava Ciência Política. Aliás, eu adorava isso. Conheci grandes pensadores como Max Weber, Durkheim, filósofos e as teorias de Santo Agostinho sobre a passagem do tempo, que na minha cabeça faziam total sentido.

Ah, me recusei a ler “O mundo de Sofia”, simplesmente porque em alguma época da minha vida, eu desconfiava que tinha uma ”rival” com esse nome. Fazer o que? Tenho dessas implicâncias.

Depois passei um período voltada para literatura publicitária, já na faculdade. E algum tempo depois voltei aos livros trazida pelo “Apanhador no campo de centeio”.

Passei pelos contos de Fernando Sabino, por Lygia Fagundes Telles, pelos poemas de Camões, inclusive arriscando a escrever os meus próprios poemas, com métrica, rimas “ricas” e versos alexandrinos. Nessa época, o meu irmão, igualmente maluco, estava numa fase de escrever sonetos para dedicá-los a musa idolatrada dele. Comprou até caneta tinteiro e queria arranjar uma pena de ganso “original”, logo ele encarregou a secretária lá de casa de conseguir a tal pena, e acho que ela deve ter corrido muito atrás de alguma galinha por aí, mas conseguiu. 

Numa fase mais light engatei o Veríssimo, o pai e o filho. Ambos maravilhosos. E noutra, busquei no Nelson Rodrigues a forma irônica e crua de se pensar as coisas.

Após a mudança para o Rio, voltei a ler Vinicius, tudo isso aqui é tão parecido com ele que voltei a procurá-lo. Li mais uma obra na intenção de me esconder, o Encontro Marcado, do Fernando Sabino, e dessa vez, me reconheci no personagem, ele era tão parecido comigo, que acabei me reencontrado e este se tornou um livro do qual nunca vou esquecer, porque marcou uma fase de transição.

Li Fernando Pessoa, por influência de uma amiga portuguesa. 

Agora vou me perder na “Terceira Margem do Rio”, título que exerce fascínio sobre a minha imaginação, enfim, vou ver de perto o que você tem nas entrelinhas, Guimarães Rosa.


Assim vai ser

Agosto 20, 2008

Chorei.

Para dar adeus a tristeza.

E só assim,  ela foi embora.

Me deixou em lágrimas [cada qual que me molhou o rosto].

 

Despertei.

Para dar bom dia ao hoje.

Ficou em mim o alívio e aquela vontade louca de respirar.

No ar, novos ares:

Inspiradores.

 

Senti.

O sentimento está inteiro.

Às vezes, me foge ao peito.

Mas me pertence.  Vive comigo.

Vai aonde eu for. 

Só não vai embora. Nem se despede.

Porque gosta de permanecer.

E assim vai ser, porque assim eu sou.

“Sem dizer adeus”  (Paulinho Moska).

“Eu fiquei sozinho até pensar que estar sozinho é achar que tem alguém. Já me esqueci do que não fiz e o que farei pra te esquecer também?  Se eu… não sei. O nome do que eu sinto não tem nome que domine o meu querer”


Aí tem

Agosto 19, 2008

Se a cidade é maravilhosa, as histórias só poderiam ser mirabolantes.

E hoje fiquei pensando nos personagens que criamos, para dar mais graça aos nossos finais de semana de praia. Sim, nós levamos os tais devaneios para qualquer lugar.

Especulação. Longe de ser aquilo que se faz em finanças, vivemos de fazer um constante exercício de imaginação, que requer muita criatividade para deduzir absolutamente tudo o que vemos sobre as figuras mais curiosas da praia. Somos capazes de prever o passado, presente e futuro.

Junta-se a mim nessa prática uma amiga enriquecida de boas doses de “non sense“, ingrediente essencial para ser um bom contador de “causos”. E o mais engraçado de tudo, é quando as pessoas pegam o bonde andando e começam a acreditar nas tais histórias. Especular é pura diversão, é não ter certeza de nada, e por isso mesmo, imaginar que sabemos de tudo um pouco.

Vamos aos personagens:

A Pixotinha: criada a partir de uma desavença amorosa. ”Pixotinha” acabou por virar sinônimo de mulher baixinha. Um dia apareceu na praia muito bem acompanhada e causou furor na mulherada, inclusive o ataque de ciúmes que lhe rendeu esse título. Depois, nunca mais tivemos notícias. Especula-se atualmente o que tem feito da vida.   

Cepacol: Queimadinho de sol e saradão estilo posto 9. Não bastasse o corpo bonito, ainda tem os cabelos ao vento. Esse tipo já causou muita curiosidade, mas depois que fontes seguras nos repassaram fatos verídicos, o alvo perdeu a graça. Não mais se especula, para nós, um dos segredos é chamar a atenção pelo mistério. 

O “Maravilhoso da Bicicleta”: o apelido surgiu no dia em que esse rapaz muito bem apessoado foi passear de bicicleta em Ipanema sendo unicamente responsável por quebrar os pescoços alheios, em especial o das mulheres. Hoje em dia especula-se por onde anda a bicicleta, já que ele tem sido visto a pé, como um transeunte qualquer. 

Clark Kent: o ar intelectual que os óculos lhe emprestam já arrancaram alguns suspiros. Mas, atualmente especula-se o porquê dele estar sempre de boné.

O Irmão: é a figura mais enigmática de todas. Inclusive porque até agora não tem rosto. Pode ser qualquer pessoa que achemos minimamente parecida com um dos integrantes da “Equipe” (um núcleo inteiro de personagens que formam uma roda de amigos). Especula-se o perfil físico e psicológico desse personagem. Ele já foi várias pessoas, e até agora, não conseguimos identificar quem ele realmente é. 

A namorada do skatista: ela pôs fim a temporada dele de solteiro no Rio de Janeiro. Especula-se qual o ‘borogodó’ dessa mulher.

E assim se faz praticamente uma novela. Poderia passar horas escrevendo aqui sobre os demais personagens baseados em fatos fictícios que tanto nos divertem. Mas como disse anteriormente, é o mistério que nos move, daí não tem graça sair revelando tudo para vocês.

Mas aí tem história. E muita.


Fui por pouco

Agosto 18, 2008

Estava inquieta, exatamente como disse outro dia para um amigo meu: “a pessoa que mais me atormenta ultimamente sou eu mesma”. Daí na hora não pensei muito. Recebi um convite para passar uns dias fora do Rio. E fui, assim, meio sem mais nem menos.

 Já que me apareceu um destino, ainda que temporário,  arrumei uma dúzia de coisas e passadas duas horas e meia e alguns tantos quilômetros, cheguei.

Mas, prefiro falar do retorno. Sempre volto com mais coisa na bagagem.

Voltou comigo aquela sensação de estar em casa, a tranquilidade de um amibiente doméstico, com cheiro de comida caseira, horários fixos e rotina. Embora o local tenha sido muito acolhedor, o que mexeu mesmo comigo foram as pessoas, todas elas, inclusive as “pessoinhas”.

Durante esse curto espaço de tempo, aconteceu algo simplesmente inesquecível. Existe uma parábola na bíblia que fala sobre doação, a diferença existente entre aqueles que doam aquilo que tem em abundância e a pobre mulher que dá as únicas moedas que possuía.

Eu recebi poucas moedas, mesmo sem tê-las pedido. No entanto, foram mais do que o suficiente para mim, porque era exatamente aquilo que me faltava. 

Ganhei poucas moedas e tudo ao mesmo tempo. Ganhei três pessoas para sentir saudades. 

Pode até parecer pouco para alguns, mas na verdade, o que elas me deram, era o que tinham de melhor - o que realmente são.


“Só o silêncio é sincero”

Agosto 9, 2008

Antes de sair voltou-se para Antonieta:

“- Ia lhe dizer uma coisa muito importante. Mas é tão importante que prefiro não dizer. Só é sincero aquilo que não se diz”.

E assim um velho senhor, personagem de Fernando Sabino, discorreu sobre o silêncio nas coisas da vida.

O que cala é tão ou mais importante do que aquilo que se fala. Já escutei cerca de dois ou três provérbios chineses que  tratam do mesmo tema. Entretanto, sobre a sinceridade das coisas que silenciamos, foi a primeira vez que vi algo parecido.

E parei para pensar no assunto, como não poderia deixar de ser. Procurei referências análogas em letras de música e na literatura.

Revi tudo o que não disse. Antigamente, costumava pensar que eu era o tipo de pessoa que simplesmente não conseguia dizer certas coisas, e me arrependia do que não havia dito, me martirizava com os limites de minha expressão, e pelo fato de não encontrar palavras. Contudo, quando passei a considerar a sinceridade de tudo aquilo que calo em mim, encontrei alívio no silêncio, na mesma quietude que antes me oprimia o peito.

Recordei uma conversa que tive com um grande amigo, recém-separado na época, e que por esse motivo voltava a morar sozinho. Ele me falava da estranheza de não ter alguém por perto, da aflição e vontade de conversar, de deixar a televisão ou rádio ligados para fazer companhia.

 E eu, pensando alto, disse pra ele que morar sozinho nada mais é do que aprender a conviver com o seu próprio silêncio.

E me calei. Naquela hora eu entendi a importância que o silêncio tinha pra mim, como agora eu compreendo a sinceridade dele.

“Guardo pra te dar as cartas que eu não mando”, disse o Leoni certa vez, em uma música cheia de saudade. E, de fato, ele nunca vai mandar mesmo as tais cartas. Porque o grande segredo está em guardar para si aquelas palavras, bem lá no fundo, como uma verdade intocável, cheia de silêncio.


Luz, leveza e poesia

Agosto 3, 2008

Foi assim que se despediu do Rio de Janeiro a banda Seu Chico. Um bando de cabras bons da peste que resolveram sair do Recife para cantar Chico Buarque por aí.

E que bom que fizeram isso. Meus amigos e eu nos reunimos - mais de uma vez inclusive - para ver a banda passar cantando coisas de amor, frevo, maracatu y otras cositas más. Chegamos a um passo da completa tietagem.

Em meio a brincadeiras e conversas um pouco “imaginativas” a história de Chico é contada pelos poetas fanfarrões em pleno show, que fazem da biografia dele uma porção de fatos curiosos, os quais não poderiam nunca passar em branco, porque se transformariam em verso, rima, métrica e música.

Fico por aqui “esperando, esperando, esperando, esperando o sol…”


Prometo dizer a verdade

Agosto 1, 2008

Prometo várias coisas a mim mesma ao longo da vida. E às vezes me pergunto o porquê de ainda cumpri-las se fizeram parte de outro tempo, geralmente já decorrido. Ao final concluo que o cumprimento de algumas destas, de forma quase ritualística, faz com que tenham mais valor para mim e me relembram de quem eu era, e o que pensava há alguns anos.

Das promessas inocentes:

Lembro de certa vez ter conhecido um garoto em uma viagem para a Venezuela. E ele tinha, de fato, os olhos mais bonitos que eu já havia visto na vida. Tinham um pouco de céu e de mar. E foi tão grande o meu encanto, que prometi que ao ver um céu de tão maravilhoso azul, lembraria dele, e de alguma forma, isso me fez tê-lo vivo na memória, embora nunca mais o tenha visto.

Das promessas desfeitas:

Prometi nunca ficar com alguém por ficar. Achava péssimo. Depois passei a pensar que era um “mal necessário” – “esquecer um amor com outro” – e com o tempo, voltei ao pensamento incial, porque não existe tentativa e erro em se tratando de amor. Bom mesmo seria se existisse tentativa e acerto.

Das promessas ao mundo:

Prometi ver o Rio de Janeiro com olhos de turista. Para poder enxergar a cidade, a vida e as pessoas exatamente com a mesma beleza, com a mesma admiração, com os mesmos olhos sorridentes.

Das promessas que já nasceram para serem quebradas:

Após escolher quem seria para mim o “Menino do Rio” e, por consequência, o menino dos meus olhos, prometi que só ficaria com outra pessoa se fosse mais bonita do que ele. Não deu certo, óbvio. Porque há meses e durante um longo e tenebroso inverno não encontrava – e nem queria – alguém que não fosse ele. Ao me desfazer dessa promessa, pude ser livre e feliz novamente.  

Das promessas musicais:

Prometi ao meu cachorro, embora ele não compreenda, que ao escutar ”Pretinhosidade” da Martnália, lembraria dele – “Minha pretinhosidade, minha festa”. É a cara dele.

Prometi que ao escutar aquelas músicas antigas de seresta, lembraria do meu pai tocando violão. Engraçado foi o dia em que entrei no ônibus e um passageiro estava assoviando uma destas no banco da frente. Fizemos um “dueto”.

Prometi que “Chega de saudade” do Vinicius, me faria lembrar de um tempo em que rasguei o coração exatamente como o poeta, e isso me trouxe uma pessoa que quero ter por perto, mesmo que seja em pensamento.

Das promessas para o futuro:

“Prometo amá-lo e respeitá-lo de todo o meu coração durante todos os dias da minha vida”. 

Vai ver por isso passei a vida inteira prometendo coisas.