Lembro desde o primeiro: “O Gato de Botas”, aprendi a ler com esse. Depois li todos aqueles contos de fada da meninice em uma coletânea chamada “O mundo da criança”. Nunca fui exatamente desse mundo, sempre pertenci ao meu, daquele que invento a cada dia. Então, logo comecei a me aventurar por outras paragens literárias.
Numa viagem recente, vi um título que lembrou a minha juventude, “As viagens de Gulliver”, agora em DVD. Lembrei daquela época em que eu deixei de lado as minhas Barbies loiras e de puro plástico. Se bem que eu adorava as historinhas que fazia pra elas… Mas enfim, não era muito a minha onda, elas não tinham muita idéia para trocar comigo.
Fui ler Shakespeare, “Sonho de uma noite de verão”, “Romeu e Julieta”, “Otelo” entre outros, como já entrava na pré-aborrecência, nada melhor do que se deparar com a tragédia.
Encontrei a poesia e me viciei totalmente. Era uma boa para escrever as primeiras cartinhas de amor: Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius, Drummond.
Depois passei para a série de Sidney Sheldon, hipnotizantes romances policiais com sexo, violência, drogas, assassinatos, gente louca viajando pelo mundo, tudo o que flerta com a mente ávida por informação de uma menina de 12 anos. Passei tardes inteiras no quarto sob influência desse tipo de coisa. Minhas amigas e eu, tínhamos até um “clubinho de leitura”, cada uma comprava uma obra e trocávamos entre si, depois comentávamos as partes mais interessantes.
A minha relação com os livros sempre foi algo especial. Também há uma certa dualidade, quando eu gosto muito de um livro, às vezes leio numa vontade louca de saber como será o final, e em outros casos, vou lendo aos poucos, descobrindo, desfrutando, querendo adiar o fim para não me despedir dele. Não sei dizer em qual das duas situações eu gosto mais da obra. Também não lembro de nenhum livro que tenha me deixado uma sensação de perda de tempo, como às vezes acontece com os filmes.
Os livros tem sempre algo a dizer. E isso pode soar como óbvio, mas é verdade.
Algumas vezes me escondi por trás de alguns livros. Lembro da ocasião do meu “pós-primeiro beijo” e da vergonha de encarar a pessoa no dia seguinte. Mas isso estava longe de ser um grande problema pra mim. Fui para o intervalo da escola com “O Cortiço” em mãos, e fiqui ali entretida, vivendo outras histórias que não a minha, e perdida nas entrelinhas de Machado de Assis. Nessa mesma intenção, li Maquiavel para Mulheres, indicação de uma professora da faculdade de Direito, ela ministrava Ciência Política. Aliás, eu adorava isso. Conheci grandes pensadores como Max Weber, Durkheim, filósofos e as teorias de Santo Agostinho sobre a passagem do tempo, que na minha cabeça faziam total sentido.
Ah, me recusei a ler “O mundo de Sofia”, simplesmente porque em alguma época da minha vida, eu desconfiava que tinha uma ”rival” com esse nome. Fazer o que? Tenho dessas implicâncias.
Depois passei um período voltada para literatura publicitária, já na faculdade. E algum tempo depois voltei aos livros trazida pelo “Apanhador no campo de centeio”.
Passei pelos contos de Fernando Sabino, por Lygia Fagundes Telles, pelos poemas de Camões, inclusive arriscando a escrever os meus próprios poemas, com métrica, rimas “ricas” e versos alexandrinos. Nessa época, o meu irmão, igualmente maluco, estava numa fase de escrever sonetos para dedicá-los a musa idolatrada dele. Comprou até caneta tinteiro e queria arranjar uma pena de ganso “original”, logo ele encarregou a secretária lá de casa de conseguir a tal pena, e acho que ela deve ter corrido muito atrás de alguma galinha por aí, mas conseguiu.
Numa fase mais light engatei o Veríssimo, o pai e o filho. Ambos maravilhosos. E noutra, busquei no Nelson Rodrigues a forma irônica e crua de se pensar as coisas.
Após a mudança para o Rio, voltei a ler Vinicius, tudo isso aqui é tão parecido com ele que voltei a procurá-lo. Li mais uma obra na intenção de me esconder, o Encontro Marcado, do Fernando Sabino, e dessa vez, me reconheci no personagem, ele era tão parecido comigo, que acabei me reencontrado e este se tornou um livro do qual nunca vou esquecer, porque marcou uma fase de transição.
Li Fernando Pessoa, por influência de uma amiga portuguesa.
Agora vou me perder na “Terceira Margem do Rio”, título que exerce fascínio sobre a minha imaginação, enfim, vou ver de perto o que você tem nas entrelinhas, Guimarães Rosa.
Escrito por unseoutrosdevaneios
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