Romanceando

Outubro 31, 2008

Achei que daria um bom título.

Romancear é colocar um pouco mais de sentimento nas coisas do dia-a-dia. É acreditar em uma coisa apesar dos pesares, no matter what.

Hoje ouvi um amigo falar sobre o tempo em que ele foi idealista, com um certo saudosismo, daquele tempo em que ele acreditava em alguma coisa, e que hoje só restava a realidade. A dura realidade… Só será assim se você colocá-la nesses moldes – pensei.  Antes de tudo é preciso dar a chance de enxergar o outro lado.

Romancear é a arte de pensar na beleza das coisas, mesmo frente às dificuldades.

Que o Rio de Janeiro é menos divertido com chuva, mas que dá tempo para você ficar em casa, de preguiça.

Que as pessoas ao redor não o compreendem porque às vezes não sabem lidar com a própria imcompreensão.

Que há beleza naquela música com 50 versos ruins, quando você ouve 1 lindo que fala de amor.

E que algumas lágrimas, às vezes, são o caminho da sua renovação. Por isso, também é preciso deixá-las rolar.

Romancear é dar espaço aos seus sonhos malucos, às palavras bobas e aos atos impensados. Afinal, quem romanceia não pensa nos atos. Age, tão somente.

Outro dia, li que Rubem Alves dizia não escrever romances porque não se dava bem com as estruturas de “princípio, meio e fim”. Concordo.

Por isso, estou por aí, romanceando. Escolhendo dar continuidade a uma ação, que pode modificar todas as outras da minha vida. Para vê-la com os melhores olhos que tenho, os que verdadeiramente enxergam, mesmo se estiverem fechados.

Lembrei do final do filme Inteligência Artificial: “Ele dormiu e foi pela primeira vez para o lugar onde nascem os sonhos”.

Lá estou e ao mesmo tempo aqui, romanceando…


O menino e o vento

Outubro 26, 2008

Nesse dia, preferi vir caminhando. É bom para a ideação. E aos poucos fui me familiarizando com o movimento da rua, os barulhos, os cheiros, as pessoas nas calçadas… O trajeto de volta a casa também faz parte da sensação de estar em casa. E sempre há muitas coisas pelo caminho.

25 graus, céu nublado, Cristo parcialmente coberto e de repente… um menino.

Um menino, um saco preto amarrado em um pedaço pequeno de barbante e o vento… que soprava a “pipa” improvisada adiante.

Um menino, um saco preto, o vento e a felicidade.

E eu… passando por ali.  Registrando aquele momento e pensando na ironia da vida: às vezes mesmo quem não tem nada, tem tudo. E eu, que tenho o suficiente, naquela hora não tinha aquela simplicidade para ser feliz.


Rubem Alves, apaixone-se.

Outubro 24, 2008

Bem… O Jô Soares não o deixou falar muito. Mas pelo pouco que foi dito, logo pude perceber o brilhantismo de Rubem Alves.

Ele subverte a ordem, inclusive porque a conhece muito bem. Teólogo, professor, filósofo, psinacalista, escritor e até dono de restaurante. Sem súvida, exerce as suas várias paixões ao longo da vida. E, no auge dos seus 74 anos, dos quais, ele só conta os anos que estão por vir, ele ainda se diz uma pessoa apaixonada pela vida, dessas que dá orgulho de ver, dessas que viram exemplo.

A natural curiosidade me fez ir atrás de algumas coisas que ele escrevera, já que o conheci tão tardiamente. Fiquei pensando se já havia lido algo dele, ou se estava confundindo com o Rubem Braga, porque eu vivo trocando nomes… E ele, vive retratando o hoje, cronista, ”fotógrafo do momento”, como se auto definiu. 

Das coisas que li, as quais, transcreverei algumas a seguir, a que mais me comoveu foi o que vinha gravado na biografia dele: ”acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza”.

Acredita na beleza do ser humano e das coisas da vida, e vai além: acredita na grandiosidade das almas. É exatemente isso que passa em seus textos, o que é igualmente belo. 

O ser humano é aquilo que pensa e o que faz. Agora eu entendo…

“A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar” (Rubem Alves)

“A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas” (Rubem Alves)

“Toda alma é uma música que toca” (Rubem Alves)

“Cartas de amor são escritas, não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel” (Rubem Alves)

Rubem Alves lança o livro “Cantos do Pássaro Encantado”, que fala sobre o nascimento, a morte, a ressureição e o amor:

“A paixão é pura porque vive de uma coisa só: a imagem da pessoa amada. Não se trata de uma imagem mais bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras. O apaixonado só pensa na pessoa amada. Sempre.”


Solte as suas feras

Outubro 23, 2008

É o que eu sempre digo: de perto ninguém é normal. E o ser humano nem teria graça se o fosse.

A loucura é a parte mais bacana de nós mesmos. Ultimamente, resolvi enlouquecer outra pessoa além de mim mesma, procurei um terapeuta. Um não, vários. Estive entrevistando algumas pessoas que se profissionalizaram em escutar os outros e o resultado tem sido muito bom.

Já tive altos papos com os meus amigos que sofrem de transtorno obssesivo compulsivo, síndrome do pânico, depressão e outros tantos males psicológicos que podem existir nessa terra. E a verdade é que as pessoas são instáveis.

Não estamos mais na geração Coca-Cola, essa sem dúvida nenhuma é a geração Prozac. Mas voltando aos meus amigos, são pessoas absolutamente normais. Quer dizer, nem tanto. A única diferença entre eles e as outras pessoas, é que agora eles têm uma loucura diagnosticada.

Tenho uma teoria de não ir muito ao médico, porque vou acabar descobrindo alguma doença que eu não fazia idéia no meu histórico. A mesma coisa deve acontecer numa consulta com o terapeuta, você vai “cavucando” todas aquelas coisas que nem sequer imaginava que faziam tão mal e começa a ver as coisas de uma outra maneira. Muda a percepção. Muda muita coisa.

Todo mundo deveria ter um “ouvinte profissional”. Tem horas que aquele seu amigo, o que tem o coração mais grandioso do mundo, simplesmente não basta. Você se sente alugando ele, e este, por sua vez, também se sente alugado, embora nunca admita isso pra você.

E as pessoas realmente devem ser muito bem pagas para ouvir. Você já pensou passar o dia inteiro escutando problemas que nada tem a ver com a sua vida? Ca – ra – ca. Deve concentrar uma má vibe no final do dia.

Enfim, soltemos as feras desenbestadas do lado mais obscuro do nosso ser, sabe o lado negro da força? Pois é… Todo mundo tem, não sejamos hipócritas. E enlouqueçamos de vez os nossos terapeutas, eles estão aí pra isso mesmo, e você vai se sentir incrivelmente bem, vai ser MARA!


Aí vai um pensamento. Ou vários.

Outubro 6, 2008

Três histórias, o mesmo desfecho.

Numa madrugada dessas, um SMS me chamou a atenção. Tratava-se de uma mãe, que distante do filho, mandou uma mensagem cheia de saudade. E ele, me mostrou, passando aquele sentimento adiante, com a mesma intensidade que ela talvez sentira quando o transmitiu.

Fiquei em silêncio, às vezes, ele é necessário para deixar a nossa voz interior nos dizer certas mensagens. E depois de uma boa noite de sono, a minha foi essa: as pessoas permanecem juntas quando estão unidas pelo pensamento.

E isso, eu também passei adiante,  quando o encontrei. Encarei como uma responsabilidade, dividir aquele pensamento com alguém, assim como ele compartilhou aquele momento comigo. 

Voltei a pensar nisso dias depois. Um amigo me procurou para entender a partida de um ente querido. E eu, que raramente me questiono sobre a morte, conversei com ele horas a fio, tentando esclarecer o nosso entedimento e também buscando certo alívio. E eis que, na nossa reflexão, me veio a cabeça que o amor não deixa de existir, sobrevive a qualquer coisa, até à morte.  Tanto que, mesmo que a pessoa tenha partido você não deixa de senti-lo, existe aqui, em você, e com certeza, também do outro lado.

A outra história trata de um sentimento, que mesmo ao longe, é cultivado. Não tem a urgência do hoje, do momento. E nem toda aquela ansiedade que geralmente se vê nas relações atuais. São pessoas que se buscam, porque estão unidas pelo pensamento, e por uma necessidade que um supre no outro. Racionalmente não sabem qual é, mas encontram-na instintivamente quando estão juntos. Descobrem um ao outro e ao mesmo tempo, acabam por descobrir a si mesmos.

Três histórias e várias pessoas, cujos pensamentos, sentimentos, crenças e descobertas as unem, apesar da distância, e até mesmo da saudade. Ela própria, a vejo, mais como presença de alguém em nós do que ausência, como disse uma vez a um amigo: “Também sinto saudades, mas prefiro pensar q estás por perto do que dar a tua falta”. 

E assim encontrei uma forma de carregar todos os meus amores comigo, aonde quer que eles estejam.