O bem atuante

Maio 17, 2009

Esse texto começa sem a preocupação de ser pretensioso, dicotômico e esquizofrênico. Mas de repente pode se tornar tudo isso (risos).
Para início de conversa, acredito que o Homem nasce essencialmente bom, mas preservar-se dessa maneira é uma das nossas grandes missões na vida, alguns chamam de karma, outros de plano, outros de meta, alguns dizem que cabe a Deus, alguns dizem que cabe ao Homem mesmo… Enfim, essa discussão toda teve início porque algo muito ruim me aconteceu. Há alguns dias fui vítima de estelionato o que causou um certo transtorno, já que fizeram “o rapa” na minha conta bancária e levou também a uma série de discussões entre os meus amigos.
Uma delas se refere ao fato de eu tornar público esse golpe e assim prevenir outras pessoas, o que recai mais ou menos naquele tipo de história, “é claro que pode não dar em nada” mas pelo menos se você denunciar outras pessoas podem se precaver. Um grande amigo me disse que esse tipo de coisa só acontece, porque os bons se calam enquanto os maus fazem a festa. Fiquei pensando a respeito.
Pensei, ironicamente, que os maus levam a maior fé nas atrocidades que fazem, enquanto os bons, muitas vezes tem fé vacilante. Acreditam que não vai dar em nada, que a Justiça é lenta, que o Brasil é uma merda, que ninguém se responsabiliza por nada e mais uma série de outras reclamações que somadas, essas sim, não levam a lugar algum. Se ninguém se responsabiliza e se trata da sua vida e dos seus interesses, que tal vc mesmo se responsabilizar? Esse é o bem atuante. Não é só ver todo mundo perdendo as casas nas enchentes do Norte e Nordeste e pensar: “putz, que merda”. Acho que seria algo do tipo: “putz, que merda… mas será que eu posso fazer alguma coisa pra ajudar?”
Graças a Deus o meu prejuízo foi meramente financeiro e também intelectual, porque muita gente me pergunta, como eu fui cair no papo dos caras. A resposta é simples: assim como muita gente cai. Como diz a minha mãe, bandido é tudo profissional.
E eu ainda me peguei falando pro meu amigo: – Isso aconteceu logo agora que eu ía fazer a doação pro pessoal do Maranhão!?
Resultado: no outro dia, me levantei reuni algumas coisas que tinha e fiz a doação mesmo assim. Primeiro por acreditar que tenho que fazer a minha parte, e segundo, para acreditar que o bem tem um espaço muito maior na minha vida do que qualquer maldade que possa vir a me acontecer. E isso é uma decisão.


Fecha parágrafo

Maio 17, 2009

Leu algumas palavras e ponto. O ponto final. Seco e direto. Sem meio termo, sem termo, sem muita explicação. Que satisfação há de haver afinal?
E foi assim: sem ver o rosto, sem ver as lágrimas, sem ver. Desse jeito cego acabou por lançar-se nos travesseiros que ainda tinham o cheiro dele, uma mistura de Armani com tabaco. E passados aqueles dias sem o menor sentido, sem comer e sem dormir, atônita, levantou-se.
A primeira providência foi lavar a roupa. Arrumar tudo o que tinha do lado de fora, já que dentro estava a mais completa bagunça. Livrou-se, mas ainda assim, não se libertou daquele sentimento.
Eram duas as perguntas que lhe vinham a mente: o que fez? E o que faria agora?
O passado se encontrava com aquela expectativa frustrada de futuro, que se tornou, de repente, tão obscuro. Um futuro do qual, tempos antes, tinha tanta certeza.
E morreu a cada dia um pouco, tentando aniquilar a mágoa. Pensava que coisas ruins também acontecem para quem se considera ou tenta ser uma boa pessoa. E a verdade é que nunca se sabe os porquês.
“A injustiça existe”, concluiu. E de sentir-se injustiçada só imaginava que alguém teria feito justiça colocando um fim, seja ele qual fosse, naquela situação.
Pela primeira vez gostou de verdade, tanto que chegava a doer, mas depois, o que ficou mesmo foi a dor. E o gostar aquiesceu.
Passou os dias de um lado para o outro inquieta, experimentando os mais variados tipos de sentimento: raiva, rancor, mágoa, até chegar ao silêncio. Sentiu-se isolada num silêncio que nunca fez parte dela: sufocante.
E de imaginar que alguém tentou lhe dizer o que veria quando olhasse pra trás, como teria tanta certeza? - “Você não tem os meus olhos” - pensava afinal que não há o que dizer quando não enxergamos senão pelos nossos próprios olhos. E esses são os dela, que apesar de tudo, enxergam que hoje essa dor só existe porque é proporcional a quantidade de amor que se tem ou que se teve por alguém um dia.

Obs: Esse é um texto antigo, e essa é a parte da história publicável, a outra virou silêncio (Nayla Soutelo).