Fecha parágrafo

Leu algumas palavras e ponto. O ponto final. Seco e direto. Sem meio termo, sem termo, sem muita explicação. Que satisfação há de haver afinal?
E foi assim: sem ver o rosto, sem ver as lágrimas, sem ver. Desse jeito cego acabou por lançar-se nos travesseiros que ainda tinham o cheiro dele, uma mistura de Armani com tabaco. E passados aqueles dias sem o menor sentido, sem comer e sem dormir, atônita, levantou-se.
A primeira providência foi lavar a roupa. Arrumar tudo o que tinha do lado de fora, já que dentro estava a mais completa bagunça. Livrou-se, mas ainda assim, não se libertou daquele sentimento.
Eram duas as perguntas que lhe vinham a mente: o que fez? E o que faria agora?
O passado se encontrava com aquela expectativa frustrada de futuro, que se tornou, de repente, tão obscuro. Um futuro do qual, tempos antes, tinha tanta certeza.
E morreu a cada dia um pouco, tentando aniquilar a mágoa. Pensava que coisas ruins também acontecem para quem se considera ou tenta ser uma boa pessoa. E a verdade é que nunca se sabe os porquês.
“A injustiça existe”, concluiu. E de sentir-se injustiçada só imaginava que alguém teria feito justiça colocando um fim, seja ele qual fosse, naquela situação.
Pela primeira vez gostou de verdade, tanto que chegava a doer, mas depois, o que ficou mesmo foi a dor. E o gostar aquiesceu.
Passou os dias de um lado para o outro inquieta, experimentando os mais variados tipos de sentimento: raiva, rancor, mágoa, até chegar ao silêncio. Sentiu-se isolada num silêncio que nunca fez parte dela: sufocante.
E de imaginar que alguém tentou lhe dizer o que veria quando olhasse pra trás, como teria tanta certeza? - “Você não tem os meus olhos” - pensava afinal que não há o que dizer quando não enxergamos senão pelos nossos próprios olhos. E esses são os dela, que apesar de tudo, enxergam que hoje essa dor só existe porque é proporcional a quantidade de amor que se tem ou que se teve por alguém um dia.

Obs: Esse é um texto antigo, e essa é a parte da história publicável, a outra virou silêncio (Nayla Soutelo).

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